eu penso em você agora. imagino você. e subo até o quarto escrevendo sem me dar conta de que já nos falávamos, mas era como se você não estivesse mais aqui. porque agora, de algum jeito, eu também estou pensando na sua morte. quando eu era criança, minha mãe saía cedo para o trabalho e ao fechar o portão minha cabeça inventava um som de acidente. era o tempo de ouvir pra sair correndo invadir o armário e cheirar todas as roupas. repudiei esse cheiro tempo depois. mas você mistura cheiros. desodorantes, chama sucesso e esse perfume que ganhou de aniversário. também tem esse cheiro fabril, o mesmo odor das poltronas da fábrica que colocou meu nome e que ainda leva meu nome. quantas vezes pensei em me desfazer desse nome e de ti. mas sei que já não é possível se em um mesmo dia aprendo sobre o fluxo do movimento embaixo da água e você me diz que queria saber mais, para poder me deixar mais. apostamos braçadas até o outro lado do rio, nos encontrando em cada fôlego. olhei para você, olhei para o seu corpo vivo me acompanhando dentro da água. para agora boiar de olhos fechados em volta da tua voz, conversando alto com os outros. me sentir segura e escutar os passos de minha mãe, essa presença. me disseram que agora você estava comigo e acho que nunca chamei tanto por alguém em toda minha vida. e agora você está. me carregando das águas. me sinto como uma criança agora. estou em minha criança agora.

registros do cotidiano

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